sexta-feira, 27 de abril de 2012

Grã Duquesa Olga Nikolaevna- Emily Rowanson

A grã-duquesa Olga Nikolayevna mora em uma bela casa em Mayfair, Londres, perto do Hyde Park (e também perto de sua irmã, a grã-duquesa Maria). Ela é simples e vitoriana, refletindo seus gostos. A entrevista foi feita numa pequena mesa de chá na varanda da casa, terrestre.

Quando eu cheguei, às 15:57, a grã-duquesa lia um livro, enquanto uma criada colocava chá e pãezinhos na mesa. Quando cheguei a mesa, ela levantou-se e apertou a minha mão. Seu aperto era firme.

- Boa tarde- ela disse com um tom simpático- Você é a Srta. Rowanson, a jornalista? Prazer, Grã-Duquesa Olga Nikolayevna. Sente-se!

Notando a minha hesitação, ela emendou:

- O meu chá às 16:00 da tarde é sagrado. Eu nunca o faço em outro horário. Sinta-se a vontade para tomar comigo.

A grã-duquesa Olga usava um vestido azul com botões na frente e cintura desmarcada, que ia até o tornozelo. O cabelo loiro estava preso em um birote no alto da cabeça. Também usava um casaco preto, que depois abotoou. Era uma roupa simples mais bonita. Ela me pareceu simplíssima desde a primeira vista. E um pouco acima do peso, também.

- Então...Comece a entrevista!

- Sim, hã...Madame. Eu gostaria de saber como era a vida da senhora com seu pai, no palácio?

- Ao contrário do que todos podem pensar, vivíamos de um jeito muito simples. Nossas camas eram as mesmas usadas por militares, sem travesseiros e com poucos cobertores, até mesmo para o Alexei. Tomávamos banhos frios pela manhã e sempre estávamos costurando, nunca sem nada para fazer. Também passávamos muito tempo com nossos pais e com os oficiais da nossa idade que cuidavam da nossa segurança antes da revolução. Eu adorava a minha vida.

Pergunto se ela lia as notícias, o que falavam sobre os seus familiares. Ela confirma com a cabeça enquanto toma um gole do seu chá. Quando acaba, continua a responder:

- Oh, sim. Eu sempre lia os jornais e não conseguia entender por que as pessoas odiavam tanto a minha família. Acho que, de uma certa forma, eu esperava a revolução. Mas nunca achei que tomaria o rumo que tomou.

Pergunto sobre sua prisão no palácio e depois na Sibéria.

- Na verdade, a prisão domiciliar no palácio de Alexandre não foi um pesadelo. Nosso pai, sem os deveres de um czar, tinha muito mais tempo para nós. Ele parecia mais feliz. Mas aí as coisas saíram do controle. Tobolsk não foi boa, mas tínhamos de ser fortes. Eu emagreci muito e fiquei depressiva. Eu até hoje, às vezes, médicos vem aqui e me receitam remédios. Eu tenho medo de ter depressão novamente. Eu não sei se aguentaria.

Quando ela começa a falar da Casa Ipatiev e de Ekaterinburgo, começa a empalidecer e ficar trêmula. 14 anos. E isso acontece.

- Foi...Horrível- ela se limita a dizer. Logo mudo de assunto.

- Quando você conheceu seu marido?- eu pergunto.

A cor começa lentamente a voltar a seu corpo e ela para de tremer.

- Nós somos primos, eu nem lembro de quando o conheci! Éramos bem novos. Sempre tínhamos conversado. Meu pai e o pai do Kostia eram muito amigos. Eu não sei dizer quando me apaixonei por ele, mas aconteceu. Nos casamos em Livadia, no início de 1919. Nossa filha nasceu em Londres em setembro do mesmo ano. A minha mais velha, Yevgeniya.

Perguntei o porque desse nome.

- Pelo médico que fez seu parto, o querido doutor Eugene Botkin, que nos acompanhou até a Sibéria. Eu...

Nesse momento, uma garota de cabelo muito escuro e olhos azuis cintilantes corre até nós. Ela veste um vestido cinzento e chinelos simples com meias da mesma cor do vestido. Ela diz:

- Mãe! A Tatya escondeu meu vestido!

Logo uma outra garota, com o cabelo louro diz:

- Não fui eu!

Olga suspira e diz cansada:

- Tatyana, onde você colocou o vestido dela?

- Se ela fizer o que eu tinha pedido antes, eu falo a ela.

As duas olham ansiosas para a mãe e ela diz:

- Acabe logo com isso, Zhenya, e faça o que quer que ela tenha pedido. Tatya, iremos ter uma conversa depois da minha entrevista. Pense logo nas suas respostas.

- Pode deixar!

Elas foram correndo para dentro da casa.

- Bom, e como eu estava dizendo, também tenho a Tatya. Tatya é a garota loira e Zhenya a morena. Além delas, eu também tenho o  Nikolay, ou Kolya. Ele tem 6 anos, e é o garoto mais lindo que conheço!

Mostrou-me uma foto de um rapaz de cabelo escuro e os mesmos olhos da Grã-Duquesa Eugenia.

- O cabelo eu acho que elas herdaram do Kostia- ela diz sorrindo. Ela se refere ao príncipe Constantino Constantinovich (1891), o seu marido, como os leitores já devem ter percebido- Menos o da Tatya. Ela é a cópia perfeita da avó. O mesmo cabelo e nariz!

Vi uma foto da czarina no seus tempos de garota. A Grã-Duquesa Tatyana (assim grafada para não ser confundida com suas tias) realmente era parecida com a avó. O cabelo louro, os olhos grandes e azulados, os lábios finos. Ninguém pode dizer que ela não é neta da czarina.

- Por que vocês moram aqui, e não na Rússia?- perguntei.

- O Kostia recebeu o cargo de professor de língua e literatura russa na Universidade de Londres, e viemos para cá. Eu gosto de morar aqui, é tranquilo e existem várias coisas para fazer, mas eu ainda prefiro a Rússia. Falo russo em casa com meu marido, Yevgeniya e Kolya; mas Tatya não gosta da língua e fala apenas inglês.

Sobre a educação das grã-duquesas, ela disse:

- Eu fiz um rígido programa educacional para elas. Existe uma sala de estudos no segundo andar, com quadro negro e estantes cheias de livros. Outras 2 garotas estudam aqui também, para que elas não se sintam sozinhas. Uma russa, Galina Mikhailovna, e uma inglesa, Louise Ashton. Galina tem 13 anos e Louise 11. Galina é filha da princesa Danilova, uma boa amiga minha. Em um dia, elas estudam Inglês, Russo, História, Matemática, Geografia, Pintura e piano. Elas tem geopolítica e literatura inglesa e russa 1 vez por semana. Porém, às 9:00 da manhã, elas jogam tênis. A rotina de estudos começa às 8:00 e termina às 15:00, mas quando tem as matérias extras, termina às 18:00. No final de semana elas ficam livres de responsabilidades escolares e eu convido suas amigas para jogarem e conversarem aqui em casa.

Reparei que ela realmente apreciava a educação, o que me levou aos livros.

- E a senhora, tem um livro preferido?

Ela deu um grande sorriso e disse empolgada:

- Sim! Meu livro favorito, atualmente, é Orlando, de Virginia Woolf. A senhorita já leu? É fantástico! Mas eu também gosto muito de poesias, e meu poema favorito é The Raven, de Poe. Eu li o original e o em francês. Eu amo ler!

Começou a cair uma chuva. Uma garota jovem, de cabelo castanho e olhos negros, veio até aqui e levou tudo para dentro. Quando a correria acabou, a grã-duquesa disse alguma coisa em russo, o qual a mulher respondeu e foi logo para dentro.

- Então, mais alguma pergunta?

- Quais são seus amigos na família?

Ela demorou um pouco a responder mas por fim disse:

- Eu me correspondo com minhas irmãs, é claro, e com minhas primas Irina Alexandrovna e Tatiana Constantinovna, e converso quase todo o dia com Maria, que mora bem perto daqui.

Pergunto se eles tem a intenção de voltar à Rússia.

- Oh, sim! Na verdade, Kostia foi contratado para ser professor de literatura na Universidade de São Petersburgo! Tatyana está muito enfezada por isso, ficando mais irritante que o normal. Filhos são uma benção e uma maldição, dependendo do comportamento deles.  Atualmente Tatyana está desrespeitando todas as regras. O pai está quase a dando uma surra de cinto. Mas se depender de mim, isso não acontecerá! E de minha mãe, é claro. Não quero parecer prepotente, mas Tatya deve ser sua neta preferida.

Vejo que já são 17:25. Me despeço e fico com uma impressão completamente diferente da que tinha antes da entrevista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário