domingo, 22 de abril de 2012

O Imperador e a Imperatriz- Roger MacDuff

Chego a Malborough House, onde o Czar e a Czarina estão hospedados, 15 minutos antes da entrevista. Quando chego a sala onde a entrevista será realizada, ele se levanta e vem até mim, sorrindo.

- Olá- ele disse em inglês impecável. O czar não era um homem novo. Sua barba era grisalha. Apenas havia cabelo nas laterais. O czar vestia um terno negro e gravata azul. Na gravata havia um belo ícone de um santo (depois eu soube que era São Nicolau, o padroeiro da família imperial russa), cravejado de pequenos brilhantes. A czarina vestia um vestido verde escuro até os tornozelos e uma gargantilha com o mesmo ícone da gravata do czar. Seu cabelo estava quase que completamente branco. Seus olhos eram cinzas, como se toda a cor tivesse se esvaído deles.

- Sua Majestade Imperial- eu disse me curvando ligeiramente. Ele continuou sorrindo.

- Sente-se- ele falou. Eu obedeci imediatamente. Ele me parecia gentil e afável. A czarina me parecia perdida em seus próprios pensamentos, sem dar atenção ao resto do mundo. Talvez o mundo dela se resumisse ao local onde ela estava. Onde seu pensamento estava.

- Vamos começar logo a entrevista? Ou o senhor gostaria de esperar até a hora marcada?

Disse para começarmos logo. Ele concordou com a cabeça.

- Primeiro, gostaria de agradecer por receber-me aqui.

- Tudo bem, não há de quê!- ele riu. A entrevista seria fácil. Ele não era nada do que eu imaginava.

A primeira pergunta foi sobre o que ele sentiu quando teve de se tornar czar. "Incerteza" ele disse. "Eu tinha apenas 26 anos. E era dono de um império que se estendia quase que até a América. Eu admito que tive medo".

A segunda foi sobre a política. Sobre porque a  monarquia constitucional demorou tanto a chegar na Rússia.

- O meu avô, Alexandre II, era muito liberal. Morreu a caminho da reunião que tornaria a Rússia uma monarquia constitucional. O meu pai, por causa do assassinato do meu avô, resolveu que teria de ser duro para evitar que isto acontecesse com ele. Eu continuei as políticas de meu pai talvez porque eu não soubesse o que realmente fazer com a Rússia. Eu nunca fui muito atraído pelo poder e as responsabilidades de ser o czar, mas eu tinha que assumir minhas responsabilidades. Então, eu simplesmente as assumi.

Eu pergunto sobre o Domingo Sangrento e ele fica constrangido. "Foi um erro, um erro muito grave. Eu me arrependo deste dia desastroso. Gostaria de poder voltar para aquele dia e me alertar do que poderia ter acontecido.

Logo chego a Guerra Russo-Japonesa. "Eu nunca gostei do Japão ou dos japoneses, já que um deles tentou me matar. Mas eu não me arrependo. Eu fiz o que achei certo naquele momento".

Falo sobre os controversos progroms contra os judeus. Ele responde de maneira seca: "Não me arrependo. Fiz o que era certo" e o assunto está encerrado. Eu fiquei irritado com a mentalidade preconceituosa do czar, portanto resolvi passar para a próxima pergunta.

Quando falo sobre sua família, ele se ilumina. Pega um álbum de fotos e me mostra. As fotos, ele disse, foram tiradas de 1920 a 1925.

A primeira foto era com o czar, suas duas filhas mais velhas e o czarevich num jardim, que eu li na legenda ser o de Czarskoe Selo. Haviam outras. As grã-duquesas com bebês no colo, e, com o passar do tempo, esses bebês se tornando crianças. Foi muito interessante. Eu o perguntei qual era sua filha preferida.

- É difícil dizer. Eu amo muito todas as minhas filhas e meu filho.


Logo passo aos seus netos.

- Oh, eu tenho muitos! A menina mais velha chama-se Yevgeniya, é a filha de Olga, a minha mais velha. A Olga também tem o Nikolay e a Tatyana. Minha segunda filha, Tatiana, a rainha da Sérvia, tem 3 também: Petar, Nikola e Olga. A Maria, terceira, tem 4 até agora, mas está esperando um quinto! Catherine, Victoria, Alice e Nicholas são dela. Minha mulher mais nova, Anastásia, agora uma princesa da Inglaterra, tem o George e a Olga. E meu filho, o czarevich, tem um filho, Piotr. Sua esposa está grávida.

O imperador desandou a falar sobre seus netos. Podia-se ver que era um homem que gostava da sua família acima de todas as coisas. Passei para a imperatriz, que estava ainda com o olhar perdido no nada.

- E a senhora, czarina? Que tem a dizer sobre a família?

Ela voltou-se para mim, seus olhos ganhando subitamente cor e vida.

- Infelizmente a minha mãe morreu quando eu era muito jovem- ela disse com os olhos lacrimejando- E eu não lembro quase nada sobre ela. Meus dois irmãos mais próximos em idade, Frittie e Mae, também morreram jovens. Meus outros irmãos são Victoria, a mãe do meu genro, Elizabeth, que agora está num convento, Ernesto, o antigo grão-duque de Hesse, e Irene, que casou-se com um prussiano. Meu pai morreu quando eu tinha 20 anos.

De repente, eu senti pena daquela mulher. Uma família arruinada. A rejeição do povo russo. Um filho enfermo. Quem não perderia a sanidade nestas circunstâncias?

- Você teve algum envolvimento com as políticas do Imperador?

- Sim, é claro- ela respondeu. Eu não acredito que ela seja completamente louca. É uma situação estranha. Parece que ela é indiferente a quase tudo, e, às vezes, parece que se encontra em seu próprio mundo, distante do resto de nós. Mas, quando estimulada, ela é sã, completamente sã. A cor voltava a seus olhos. Ela voltava a vida, a superfície. É uma situação estranha. Eu acredito que cada dia é uma luta diária para a imperatriz.

- O que a senhora acha do novo regime russo, finda a autocracia?

O Imperador fez uma cara preocupada. Ela começou a falar:

- Horrível! Horrível! A Rússia não está preparada para isso! É uma grande estupidez! Um grande erro! Não dará certo, NUNCA dará certo! Estamos fadados ao desastre!- Depois dos gritos ela se sentou e voltou a olhar para o nada. Maus estímulos a fazem perder a sanidade, eu concluo.

O czar indagou-me se as perguntas haviam acabado. Eu concordei com a cabeça e ele pegou um envelope de cima da mesa.

- Para o senhor.

- Obrigado. Adeus, majestade.

- Adeus- ele disse sorrindo. Apertei sua mão e fui.

Em casa, mais tarde abri o envelope. Duas cartes de visite dele e da imperatriz, e um ícone da águia Romanov. 

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